terça-feira, 9 de outubro de 2012

MENINOS MORREM DE MEDO

Itálico



MENINOS MORREM DE MEDO

Este conto foi o vencedor do 8º Habitasul 
Revelação literária na feira do Livro de Porto Alegre-RS
ano:2007 - categoria Euconto.com - gênero literário de contos
jurados: Ivonete Pinto e Jaime Cimenti


(tema: violência psicológica, espiritual, morte, medo)





Anoiteceu, tudo é silêncio. 

De minha janela, observando os fundos de minha casa fico imaginando se meninos e meninas ainda acreditam em fantasmas. Foi aqui onde passei minha vida e houve um tempo em que tudo era colorido, corríamos, brincávamos, me sentia feliz, era feliz! Agora, ao perceber além do muro a plantação de eucaliptos eu sinto calafrios ao ouvir o murmúrio do vento batendo nas copas dessas árvores longilíneas e acinzentadas, os troncos eretos que já não vergam pra lá e pra cá como antigamente. São ares de mistério, solidão e melancolia. Existiu em torno dos eucaliptos um manancial que também já fora um açude, o limite de suas águas chegava aqui bem próximo de um portão de ferro pintado de branco mas que agora está completamente enferrujado. Esse portão era o acesso para o nosso quintal... Não sei, já nem tenho mais tanta certeza de como eram as coisas, faz tanto tempo... De repente as imagens tornam-se vagas lembranças daquilo tudo. Afinal, eu tinha apenas cinco ou seis anos, nada mais que isso e, se de fato, o lugar um dia foi bonito, colorido e vibrante, hoje, aos olhos de quem passa ali na rua, tudo é abandono, tapera, escombros...  O certo é que talvez tenha chegado a minha hora de ir!

Foram as sementes trazidas até aqui pelo vento de forma perene, que produziram plantas novas, as quais cresceram sem o devido cuidado. Então a mata fechou-se, as folhas marrons de muitos e muitos outonos formaram uma camada escura sobre o solo, as gramíneas jamais arrancadas e a interminável quantidade daqueles “copos de leite”, brotaram incessantemente dentro do açude, as ramas verde-escura modificaram a paisagem de forma assustadora e definitiva, pereceram as margaridas, as azáleas, os cravos e as rosas-rosa até que ninguém mais teve coragem de adentrar na propriedade. O povo tinha medo de afundar-se no manancial, de enroscar-se nas raízes submersas, de sofrer picadas das serpentes, das aranhas e de outros insetos peçonhentos que se proliferaram na ânsia por sobreviver... Talvez seja isso mesmo ou talvez seja apenas o abandono,não sei... Talvez seja esta minha solitária amargura que ao longo dos anos acabou transformando a paisagem do lugar, o que impôs medo às crianças - meninos e meninas, os meus amigos que cresceram e partiram, e que há tanto tempo já não vêm pra brincar!  Cansei-me disso tudo e dou-me conta de que esta angustiante solidão já poderia ter acabado. Sim, eu tenho andado às voltas com meus pensamentos, me perguntando o porque não consegui ir-me embora desta casa, que um dia já foi alegre, muito muito alegre, porque que foi a casa de meus pais,  é a minha casa e foi a casa Dele*, o meu Irmão.


Faz muito muito tempo... O medo fez de mim aquilo que sou.


Vou contar-lhes: O Aéro-willis que o trouxe do Hospital naquela manhã era bordô. Estacionaram defronte a porta de entrada, a rua era de terra vermelha, chão batido, ainda não havia calçamento. Estava na janela, já esperava por alguma coisa, eu e a mana, por falar nela, onde está a mana? Vi quando saíram do veículo algumas pessoas, carregavam-no. Imaginei que dormia enrolado num lençol branco, muito branco! Impressionou-me profundamente o seu silêncio ao passar por mim, logo Ele que nunca fora quieto! Diante de qualquer pergunta ou atitude minha sua resposta era sempre o silêncio, então fiquei com raiva e voltei a sentir ciúmes: “conseguiu passear de carro, ganhar a roupa nova, o paletó cinza, a camisa branca, o suspensório marrom, a calça curta e os sapatos pretos envernizados, seu chato! Seu chato!” Xinguei-lhe baixinho pra ninguém ouvir-me. Ele nada disse. Impressionei-me, então, ao ver aquele líquido turvo escorrer da sua boca, depois, também, marcou-me intensamente o frio que senti ao passar a mão no seu cabelo avermelhado, ao tocar seu rosto pálido e dar-lhe, obrigado por mamãe, um beijo não retribuído. Insuportável o cheiro daquelas plantas, os “Copos de Leite”, começando a me causar náuseas, ocupando todo o espaço da pequena sala e novamente um grande silêncio tomando conta de tudo, das pessoas, os vizinhos em roupas escuras e seus olhares em minha direção, “o que é que eles fazem aqui há essa hora, tão cedo? Gente chata, eu Pensava. Não entendia aquele caixão “azul-anil” aberto sobre a mesa de jantar e o pai, ali, de olhos vermelhos o colocando pra dormir. Dormir? Sentimento estranho a me dominar, me assustar, enchendo-me novamente de angústias, medo, tristezas. Assim permaneci até o entardecer daquele que foi o mais longo dos meus dias e pouco antes de desaparecer o brilho alaranjado do sol disseram-me que estava na hora de o levarem...  "Levarem-no pra onde se Ele* ainda dorme?" Gritei. "Por que sempre ele e não eu?" Chorei. Ao vê-lo ir... Imaginei que não era pra sempre e naquele breve instante ainda voltei a sentir olhares de reprovação, ouvir sussurros sobre raízes submersas e sobre gritos que alguém não deu!!!

Seguiram-se os dias e nada...

Passei a sentir falta dele! Pensava, chorava, sonhava. Cada vez ficava mais impressionado. As noites me causavam ansiedade e eram sempre assinaladas por barulhos estranhos em todo ambiente. Então, foi aí que, de repente, comecei a vê-lo sentado numa cadeira no meu quarto, me olhava e sorria, e  então dei-me conta do horror! Apavorado me escondia debaixo de acolchoados e  cobertores, segurava-os com firmeza para não serem puxados, mantinha a cabeça coberta, não dormia, suava muito e percebia que o movimento aumentava, ouvia passos perto da cama, não aguentava, não suportava mais, Ele* me chamando pra brincar. Eu era só um menino morrendo de medo, me sentindo culpado, tentando gritar, pedindo ajuda, pedindo socorro, a voz não saía, a sala onde ele foi velado era ao lado do meu quarto! Não lembro de ninguém tentando me abraçar... Minha palidez aumentou de forma a chamar atenção do pai, da mãe, da mana. Perguntaram-me, eu contei, ninguém me ouviu. É esquizofrenia, disse o único doutor de Flamígera. Pensaram que enlouqueci, internaram-me, foi pior, comecei a sentir mais e mais sua presença em minha vida, não suportava o silêncio dos outros, lembrava Dele, sentia medo e repugnância à beijos, às cores verdes, azuis e bordô, lembrava das ramas dos copos de leite, do caixão anil, do Aéro-willis e sentia um vazio absoluto dentro de mim, enquanto continuava, nas madrugadas, ora uma janela batendo, ora caindo algo no chão.

Uma noite Ele* me tocou! Foi quando senti uma estranha, fortíssima e definitiva dor no peito... Depois me vi num quarto de hospital e no final do dia seguinte me traziam de volta pra casa, como haviam trazido Ele*. Eu também estava envolto num lençol branco, muito branco. Finalmente eu conseguira passear no Aéro-willis bordô!


Amanheceu! Há tanto tempo que não via o amanhecer...

Um estranho contentamento toma conta de mim... Não consigo parar de sorrir... Dirijo-me até o velho muro convencido de que meninos e meninas acreditam em fantasmas! É por isso que nunca mais vieram brincar por aqui... 

Surpreendo-me ao abri o velho portão, antes completamente enferrujado... Já não sinto medo, o que sinto é que não existem culpados! Compreendo que Ele* e todos os outros já se foram há muito muito tempo... Meu Deus, sigo andando, de repetente estou correndo sobre as gramíneas estranhamente aparadas, os “Copos de Leite” já não me causam náuseas ficaram bonitos, os troncos dos eucaliptos parecem velhos e bons conhecidos, há flores coloridas renascendo em volta do açude, não há mais água encardida, nem lama, nem lodo a escorrer da boca de ninguém... Apenas folhas, muitas folhas levantando-se ao sabor do vento.

















L.Domingos Dalabilia - ano,2007

























segunda-feira, 1 de novembro de 2010

NUM LUGAR CHAMADO LAMI*


conto publicado na revista eletronica http://www.bestiário.com/
maio/2006, ano 2, nº24
NUM LUGAR CHAMADO LAMI

(tema: preconceito-crime-mitologia)



Não! Não sou paranóico nem mentiroso, há anos durmo ao lado de uma cobra! Bunda e pernas lisa e geladas como todo o resto do corpo, a cada vez que me toca sinto calafrios. Magra muito magra, sem curvas, sem mamas... Adoro essa companhia desde quando começou a sussurrar seu nome, envolver-me no seu abraço, apertar-me inteiro, sufocar-me. Nunca foi de muita conversa, o certo é que passa o tempo todo assoviando.... Eu sempre fui bom de ouvidos desde pequeno, minha mãe de criação já dizia... Também não tenho aquilo a que chamam de braços e pernas, não me importo, nunca vi isso mesmo, sou cego de nascença e me criei neste lugar chamado Lami... Quando vim ao mundo contam que meu pai ficou assustado, tomou cachaça, bastante, saiu para pescar e não mais voltou, morreu afogado ali na ponta da Ilha do Cego; minha mãe de verdade, coitada, também ouvi dizer morreu nesse mesmo dia, do parto. Foi então que uma tal de dona Terezinha, boa gente ela,  me pegou para criar. Eu não dava trabalho, ficava ali deitado, sentado, ouvindo música enquanto os irmãos de criação me chamavam de tatu-bola... Comia, bebia, cagava e mijava como qualquer ser vivente e a única diferença é que tinham que me dar na boca e me lavar inteiro... Nem lembro das primeiras vezes que pra me limpar me jogaram n’água, aqui dentro desse manâncial que atende por Guaíba! Depois era sempre a dona Terezinha quem me carregava, me enxugava... Ensinou-me tanta coisa ela! Ensinou-me a falar, pensar, descrevia-me como eram as pessoas, homens e mulheres, aves, répteis e também como eram quase todos os Demônios... Passaram-se os anos, eu já me tornara um garoto “taludinho”, quer dizer, maior em tamanho, parecendo àquela altura da vida uma espécie de "tartaruga gigante", nem sei como é esse bicho, mas era assim que há muito Eles* zombavam de mim... Foi num dia desses que me levaram para dentro de um velho barco, a quem chamavam-no “Diabo”... Pertencia a um velho ranzinza, sujeito mau, pescador, o avô do único amigo que tive, outro garoto, doze pra treze anos assim como eu... Infância pior que a minha penso que só a dele... Finalmente chegou o dia em que me enfiaram dentro do “Diabo”, ligaram o motor e seguiram viagem Guaíba adentro... Um bom tempo eles navegaram... Eu não enxergo mas sei, não me perguntem como mas sei que foi nesse dia que resolveram acabar comigo! Desde manhãzinha ouvia os cochichos de que agora eu só dava trabalho, despesa, prejuízos e não servia para nada... Dona Terezinha coitada, esqueci de contar, morrera naquela semana, senti sua falta, alma gentil que percebia quem eu era; que falava comigo! Eles, eles não agüentavam mais a minha presença, tinham vergonha e nojo... O barco? Sim o barco, depois de navegar algum tempo parou de repente... Senti quando me levantaram e lançaram-me nessas águas geladas... Afundei como uma pedra... Nem esperaram eu voltar à tona, ouvi o ronco do “Diabo” se afastando, indo embora... E lá embaixo as risadas do velho que o conduzia, ainda ecoavam nos meus ouvidos... "Diabo" era Ele... Dos meus irmãos de criação já nem falo! Naquele instante a única coisa que alguém na minha situação poderia fazer eu fiz, tranquei a respiração, não sei por quanto tempo,  eu já havia brincado isso várias vezes, talvez pressentisse, soubesse... Foi de repente, quando me dei conta me senti abraçado por alguma coisa que me levou imediatamente para superfície, então senti uma luz forte no meu rosto, imaginei o sol, consegui respirar, senti um alivio intenso, senti-me livre, senti-me vivo, Estava vivo! Estava vivo! Para sempre vivo. Faz anos, nunca mais ouvi falar daquela gente, mas aquilo não era gente não... Gente é Lâmia*, não fosse ela Eu estaria morto no fundo do rio, trouxe-me à vida, à sua toca, cuida de mim, sussurra nos meus ouvidos, me enlaça, me abraça, me beija na boca, me faz feliz.


1. Lâmia: s.f. Monstro ou demônio fabuloso, que, segundo os antigos, tinha cabeça de mulher e corpo de serpente.(Koogan/Houaiss);
2.Lami:um bairro de Porto Alegre, às margens do Guaíba.

L.Domingos Dalabilia



domingo, 31 de outubro de 2010

A CRIATURA




A  C R I A T U R A

(tema: ignorancia-culpa-arrependimento-)







"Azia azeda um burro com o pé em cima da pedra, azia azeda um burro com o pé em cima da pedra, azia azeda um burro com o pé em cima da pedra”. Era assim que Ela benzia Virgilino toda vez que este sentia aquela queimação na “boca” do estomago. Vou te curar meu amigo, vou te curar, dizia-lhe baixinho. Claro que as palavras rezadas pela benzedeira eram pronunciadas num cochicho quase inaudível, todavia, certo é que, seja pela fé do benzido ou os chás de boldo, macela e quebra-pedra que eram servidos logo em seguida, a predição da mulher, invariavelmente, dava certo. Dava, porque um certo dia Virgilino acabou prestando mais atenção do que devia nas palavras da amiga e não gostou do que ouviu. As ofensas foram duras de parte a parte. Ficaram de mal os dois. Ela não se fez de rogada indo logo benzer outros pacientes com osso rendido, unha encravada, icterícia e quebranto, fazendo suas receitas, carregando seus apetrechos, agulha, linha, carvão, mel, agrião, pata-de-boi. Não cobrava de ninguém, apenas cumpria sua missão, dizia. Enquanto isso Virgilino espalhava todo o tipo de conversa, a quem diziam ser despeitado e mal agradecido, gostavam da negra e se a benzedura curava, que importavam as palavras ditas.



Ela se dizia solteira e nunca quisera ter filhos. Todavia, era voz corrente em Flamigera, de que muitas vezes fora vista adentrar no mato para livrar-se de alguma cria enjeitada trazida no buxo. Depois de banhar-se no rio, limpar o sangue das entranhas, regressava ao rancho, cabisbaixa, ancas finas e salientes num andar tremulo, triste e nada cadenciado. Outra gente da Vila comentava que foi casada com um “maula”. Um dia o homem desaparecera, ninguém mais o vira, teria ido embora com outra, abandonando a coitada sozinha, na miséria de vida que vivia até hoje. O único que nunca acreditou muito naquelas histórias era o Virgilino. Ainda sentindo-se ofendido depois de ter sido chamado de burro, resolvera investigar e começou em Pau d’arco, a cidade vizinha, donde ela teria vindo há muitos e muitos anos.






Logo ele descobriu que por lá ela tivera homens. Muitos, brancos, negros, ricos, pobres, esfarrapados. Que noutros tempos, a qualquer hora do dia, numa casinha construída cuidadosamente, com gerânios e flores na janela, ela os recebia, sempre atraídos pelo seu cheiro de fêmea, qual cadela no cio. Chegavam e partiam quase sem se importar que os vissem. Satisfizera os desejos desses homens todos, alguns velhos conheceram a alegria entre suas pernas e alguns meninos, quase crianças, tiveram nela sua iniciação. Tinha sido uma puta linda e insaciável, viçosa, alta, olhos e sorrisos cheios de lasciva, capaz de motivar duelos de punhal que resultaram em muito desassossego e, no mínimo, dois a três defuntos lançados no rio. Todavia, os anos lhe foram duros, cruéis, afrouxaram-lhe a musculatura, roubaram-lhe a carne e o sexo deixou de ter importância. Hoje quem a vê solitária e triste habitando um rancho miserável, logo percebe que por ali não chegam homens. Sua cara fechada e enrugada só se altera na hora da benzedura. No momento em que passa a pronunciar frases que inventou ou aprendeu não se sabe onde; quando fica sabendo que seu paciente está curado. Apenas nesses instantes é que esboça um leve sorriso e algo que parece esperança, volta, brevemente, a governar seu espírito.






Virgilino espalhou a intriga e o fez de ouvido a ouvido para toda a vila... E, novamente, voltou o povo a ignorá-lo. Eram coisas do passado, de um outro tempo disseram. O que valia era o aqui, o agora.



E foi nesse agora, nesse tempo presente, em uma de suas andanças solitárias, colhendo ervas e lenha para o seu fogão que Ela sentiu mais forte e aguda a dor no peito que vinha sentindo há dias. Logo depois, começou a ouvir espécie de gemido vindo de uns arbustos indefinidos na beira do seu caminho. Arisca, aproximou-se devagar e o que viu lhe deixou assustada pela primeira vez. Era uma criatura tão pequena e ainda suja de sangue que era impossível compreender exatamente o que seria, nem o porque de estar ali jogada ao relento, quase pronta pra morrer. Recuou, lembrando dos tantos fetos que mandara embora, todos contra sua vontade, o seu verdadeiro querer! Alguma coisa, que não podia ser gente estivera ali fazendo o mesmo que ela fizera um dia, mas o buxo deve ter crescido além da conta e a criaturinha vingara. Cuidadosamente deixou cair ao chão sua carga de lenha e ervas. Olhou para os lados, voltou a olhar demoradamente para aquilo a sua frente, atenção suspensa. Depois recolheu o montinho de carne e sangue, aconchegou nos braços e continuou seu caminho. Ninguém, nos dias que se seguiram apareceu pra reclamar e, desde então, a criatura tomou inteiramente conta dela. Durante as madrugadas passou a carregá-la consigo, adentrando potreiros e currais para dar-lhe de mamar nas tetas das vacas e banhar-se ao luar. Cães e gatos da vila, ora uns; ora outros começaram a desaparecer sem qualquer explicação.






Enquanto isso, Virgilino já mais calmo, menos raivoso voltava a sentir problemas de azia. Descobrira sentir algo estranho por aquela mulher. Procurá-la? Claro que não! Decorreram os dias, os meses e os anos se fecharam em torno da história. O povo todo estranhou a ausência da benzedeira, até sentiram falta de sua taciturna presença. A última lembrança que lhe foi dirigida aconteceu numa noite escura, quando vislumbraram ao longe, fumaça subindo no lugar onde imaginavam ser um rancho no meio da mata. Algo queimava forte naquele inferno, mas quase ninguém se importou.






Naquele instante Ela ainda continuava lá! Ela e a sua fera, criatura de forma indefinida, enorme, já sem nenhum controle. A cada vez que olhava percebia ora um lobo; ora um gato enorme lambendo seus ossos; ora via no monstro à sua frente, o marido que um dia matou e lançou ao rio; ora ali estavam os rostos de todos os filhos que não puderam nascer por culpa dele, por sua própria culpa! Mesmo sem compreender o porque, finalmente ponderou que aquilo que antes acreditava ser totalmente impossível, isto é, não ter vivido como deveria, poderia ser verdade. Considerou que fizera varias tentativas, tentativas quase imperceptíveis e que logo sufocara, mas que podiam ter representado o lado certo das coisas, sendo falso tudo o mais e que sua vida mundana do passado, suas rezas de agora e a presença da criatura, como todo o resto, não passavam de grandes mentiras. Tentara durante anos defender tudo aquilo, sua mediocridade, seus crimes, seus motivos, suas crenças, perante si mesma e, de repente, a criatura surgira, crescera, agigantara-se diante de seus olhos, dentro de sua cabeça, fazendo-a, já envelhecida, feia e ignorante, atinar, surpreendentemente, com a fragilidade da sua defesa, pois não havia nada, nada mais a defender... E o fogo... O fogo acaba tomando conta de quase tudo...Quase tudo.



Virgilino correu até onde pensava estar localizada a choupana de Maria, correu mais depressa que todas as outras vezes. Corria quase mecanicamente, cegamente. Ele próprio não sabia o que aconteceria consigo, se ainda poderia encontrá-la. Sentia-se culpado. Arrependera-se. A azia era tanta que a úlcera sangrou, estuporou, mesmo assim ele seguiu em frente, sentindo-se mal, pressentindo o fim...



Não... Não havia mais choupana nem luar... Nuvens escuras completavam o cenário assustador e tudo não era senão um imenso, silencioso e profundo buraco. Dentro dele piscavam apenas duas pequenas esferas purpúreas... Que mais pareciam olhos.

L.Domingos Dalabilia, escrito em 30.0.12009

sábado, 30 de outubro de 2010

MÓRBIDA SEMELHANÇA





MORBIDA SEMELHANÇA

(tema:psicopatia, preconceito,crime)


Pai Eu não sou santo! Você sabe eu sei todo mundo sabe... A verdade é que matei Abelardo de um jeito que não tem perdão. O pior é ainda vê-lo andando por aí cabisbaixo, imensamente triste, um sentimento de culpa à me torturar... Ele era meu irmão Pai é meu irmão, meu único irmão! Você sabe o que fiz, mas sabe também que não foi por mal, pensava em mim. Afinal, não era eu,  não era Eu quem precisava dele?


Era uma vez dois irmãos...



Um se chamava Abelardo; o outro era eu, três minutos mais novo. Isso já não importa não é pai, nada mais será como antes. Família feliz, ambos muito bem cuidados; ele no futebol, eu lendo meus livros; ele e os amigos na rua, seus carros de lomba; discussões e reclamações minhas; brigas sempre dele. Mesma escola... adolescência complicada pra mim; festinhas e namoricos só dele, eu adpatado a um trabalho; ele numa profissão diferenciada... vinte, vinte e cinco trinta anos juntos, éramos o máximo! Até aí tudo aparentemente normal, na mais perfeita ordem. Até aí né Pai?


Era Dia de Sábado. Deveríamos respeitar o sábado. Reencontro familiar, churrasco no quintal, toque na campanhia do portão. Tamanha algazarra, fui eu o primeiro a ouvir, sou bom de ouvidos, desvencilhei-me de algumas coisas, desviei aqui, desviei ali, fui atender, abri a porta e levei um susto! A mulher tinha idade aparente de vinte, vinte e cinco, trinta anos... No máximo. Rosto bonito, muito bonito, lindo eu diria, parava por aí. Usava muletas, pernas à mostra, atrofiadas, sinais evidentes de pólio, choquei-me, fiquei constrangido, nunca estamos preparados para esse tipo de situação. Perguntei-lhe o que desejava, sentiu meu desconserto, olhou-me sorrindo gentil e perguntou por Abelardo, este me seguira, maravilhado ele estava, braços erguidos, mãos abanando, demasiado feliz... Feliz demais eu diria, chegara correndo...

Apresentou-me ela! Namorada ele disse afastando-me do portão daquele jeito que só ele sabia fazer. Abraçou-a e muito cuidadosamente a fez entrar... Eu, Eu fiquei ali parado, impressionado sem acreditar no que via! Meu irmão estava louco,  pensava, aleijada, uma aleijada, de onde ele tirou essa mulher? Era demais aquilo... Senti uma dor no peito, um sentimento estranho a me dominar, raiva talvez... Não não. Logo vi que não era isso... Era náusea!

Naquele breve instante senti que a queria longe, longe de nós dois. No mesmo dia de sábado comecei planejar... Fui antipático o tempo todo, não lhe dirigi a palavra. Estranhamento deles não houve, nunca houvera antes.


Tudo aconteceu na semana seguinte. Ela voltou à nossa casa, lembra-se Pai? Chegou ao meio dia, almoço em família. Eu estava completamente mudado, na verdade preparei-me para recebê-la. Abelardo notou meu entusiasmo e ficou feliz. Disse-lhe olhando bem no fundo dos seus olhos que admirava seu desprendimento, tinha orgulho dele... Era verdade... A mais pura verdade Pai. Foi então que no meio da tarde coloquei em prática meu plano, tive sorte em resolver a situação. Nem ele, nem ninguém podem fazer mais nada, foi um acidente disseram... Ela tropeçou ao passar por mim e rolou escadaria abaixo...


Abelardo? Abelardo morreu naquele dia também Pai... De tanta dor, de desgosto! Você sabe, eu sei, ele viu.


Agora é preciso descansar Pai...


Subo o elevador da casa... Sigo solitário pelo amplo espaço que há vinte, vinte e cinco, trinta anos fora projetado para facilitar-me a vida... Paro defronte a porta de um quarto bonito... Abro-a, enfrento certa dificuldade para entrar, me aproximo da cama, me sinto só...  Estou só! Era ele Pai... Você sabe! Você sabe! Era Abelardo quem me levantava dessa cadeira.



 L.Domingos Dalabilia

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O BRILHO DO SIMCA CHAMBORD



O BRILHO DO "SIMCA CHAMBORD"

( Simca Chambor foi o nome de um automóvel produzido pela Simca francesa entre 1958 e 1961. Foi o primeiro automóvel de luxo fabricado no Brasil, a partir de 1959, tendo continuado a ser construído sob licença pela Simca do Brasil até 1967)


(tema:socio-cultural, crime)


Era inverno, quase final de agosto quando Ele chegou. Na rua principal de Flamígera a lama era tanta que afundava os pneus do Simca Chambord vermelho conduzido pelo estranho. Parou no postinho Ipiranga, desceu e pediu ao seu Deoclides da Silva que completasse o tanque com gasolina da boa... E foi esse velhinho, o seu Deoclides, quem me contou boa parte da história... Disse-me que o homem era alto, magro, rosto marcante - assim como o meu - usava chapéu de feltro marrom, galochas, camiseta do Inter que para grande tristeza dos gremistas, com o título de campeão gaúcho vencido naqueles dias, dava inicio ao ciclo do octacampeonato. Vestia calça US top, esgarçada na altura dos joelhos e muito encardida, encardida como o pensamento de alguns notórios aqui da Vila. Abasteceu o auto e pagou com uma nota novinha de cem cruzeiros. Difícil conseguir troco. Falou que não precisava, deixando de gorjeta ao frentista. Depois, perguntou sobre hotel. Não havia nenhum. Informaram-lhe onde ficava a pensão do Vô Maurílio e para cá se dirigiu. Negociou o aluguel do quartinho que ainda existe alí nos fundos e buscou no porta-malas uma sacola contendo peças de roupas aparentemente limpas; retirou também uma caixa retangular preta, verificou seu conteúdo, mexeu em alguns objetos, tomou banho e foi dormir sem jantar. Todos os hospedes acharam-no muito esquisito. Seguiram-se os dias... De muito pouca conversa ele era. Vendo, porém, as dificuldades do meu avô trabalhando duro, um dia ofereceu-se para ajudá-lo na reforma do telhado, - é de graça, foi logo dizendo, queria ocupar-se com alguma coisa. Logo apurou que o madeiramento estava infestado de cupins, precisariam trocar algumas vigas de madeira. Não seria difícil! Flamígera tinha algumas madeireiras e, coincidentemente, teria havido um tempo em que ele, o estranho, já exercera o oficio de carpinteiro... Entraram num acordo, Ele ajudaria e não precisaria pagar o aluguel por uns tempos. A partir daí, logo ao cantar do galo, era sempre o primeiro a levantar-se. Iniciava antes mesmo de tomar café aos trabalhos do dia, fazendo tudo com esmero e cuidados. Quando chegava ao final da tarde, sua atenção voltava-se toda ao Simca Chambord cuidadosamente estacionado sob o alpendre, defronte à rua. Lixava as velas, limpava carburador, calibrava os pneus, polia a lata, regulava o motor... Indicando que, cedo ou tarde, iria  partir.




Os demais hospedes não sabiam seu nome. De inicio, nem mesmo Vovô sabia o seu nome verdadeiro! O certo é que num domingo, ao findar a tarde, quando cessaram as atividades rotineiras e todos se reuniam para o jantar, dirigiu-se até o quarto e de lá trouxe a caixa, objeto de curiosidade daquela gente. Dentro dela e para surpresa de todos, havia um instrumento pouco conhecido na região. Dalí retirou um violino e imediatamente passou a tocar canções melodiosas, que num primeiro momento pareceram tristes demais para aquela gente simples da Vila, mais acostumada ao som de gaita e violão. Entretanto, alguns ouvidos mais atentos logo perceberam estarem desfrutando de algo diferente, novo, inspirador, eram  belas e agradáveis canções, vibrantes e felizes... e acabaram despertando nela, na moça que cuidava dos quartos e da cozinha, sentimentos nunca antes vividos... Claro que acabaram tendo um relacionamento amoroso. Nem cheguei a conhecê-la! Apenas observo nas fotografias preto e branco quão linda ela foi, aparência doce e gentil. Dizem que dava gosto de vê-la surgindo na porta a cada manha, sempre com um sorriso largo estampado no rosto feliz, o rosto de uma nova mulher. Era à noite... ali no quartinho dos fundos que aconteciam as suas histórias de amor! Assim terminou o inverno, coloriram-se os Ipês e as orquídeas que ornamentavam os troncos das árvores e as cercas das ruas empoeiradas... Cessaram as chuvas abundantes, as tardes se tornaram um pouco mais longas e, definitivamente o povo se acostumou com o estranho, para todos na pensão do Vô Maurilio era o Violinista e seu estranho mutismo motivo de contentamente, não incomodava ninguém, homem responsável e muito talentoso no seu jeito de ser.... Talvez, por ser assim, bom, prestativo, discreto, é que ele conquistou amizades, conheceu o amor e até sonhou em criar raízes... Todavia, meus amigos, aconteceu... Disseram-me que foi numa manha de domingo - parece que tudo acontece aos domingos - Logo depois da missa das dez, quando os moradores da pensão reuniram-se ali no pátio dos fundos pra jogar truco e conversa fora sob a sombra do velho Ipê... Tito, um menino que engraxava sapatos defronte  ao estabelecimento, entra correndo e comenta assustado que a policia da capital, um delegado e três ajudantes, estavam na entrada da pensão à procura de alguém... Nessa hora... Foi nessa hora que o estranho deixou seu mutismo de lado e aquele que todos já tinham aprendido admirar levantou de repente a cabeça, os olhos brilharam e manifestou-se de forma dura e contundente pela primeira vez, dizendo apenas: “É a mim que procuram! Protejam-se!” ...Logo a pensão foi cercada por homens armados! Até parece mentira que alguém pudesse ser tão ligeiro na hora de sacar os revolveres, dois colts 45 trazidos dentro da caixa do violino... Foi uma correria e quando cessou a gritaria... comentam até hoje, jazia ali no alpendre, tombados, os corpos dos policiais mortos... E ao longe, sob uma nuvem de poeira, o Simca Chambord em disparada, reluzindo  vermelho ao sol do meio-dia... Dentro dele, o homem que dizem ser meu pai! O estranho... Que um dia veio de longe... Nunca soubemos de onde.


(homenagém ao poeta Luiz Menezes que me inspirou essa história a partir de seu poema "o paisano")











sexta-feira, 3 de setembro de 2010

DEMÔNIOS


conto publicado na coletânea "102 que contam" organizada por Charles Kiefer em 2005
Editora Nova Prova, página: 285

D E M O N I O S

(tema; pedofilia, violência familiar, psicose )



Carregando apenas uma velha mala às costas Domenico sai do hospital São Pedro após longos dezessete anos de internamento. Caminha até a Igreja São Jorge, entra, faz algumas orações e lembra do ato de contrição aprendido com a dona Mira, sua catequista em Flamígera, “Meu Deus eu me arrependo de ter feito pecado, pois ofendi a vós que sois bom e amável, mereço ser castigado neste mundo e no outro, mas perdoa-me, Senhor, não quero mais pecar, amém". Sai quase correndo para fora do Templo, quem quer que fosse a figura que estava no altar, lhe pareceu antipática. Na calçada, vale-transporte nas mãos, apanha o ônibus da Linha Partenon em direção ao centro da Cidade. Em meio à multidão, caminha desengonçado, esbarra, tropeça e segue alheio a quase tudo. O médico lhe dissera que estava tudo bem, só não deixasse de tomar os medicamentos amostra grátis que levaria no bolso. Não confessara ao doutor o que insistia em permanecer na sua cabeça, se falasse não iriam liberá-lo como das outras vezes.  Continuava sentindo os olhares cinzentos de algo que não sabia definir, um corpo as vezes pequeno, outras vezes enorme, algo assustador! Embora todos sempre tivessem duvidado, tinha certeza, para si, uma certeza absoluta daquilo que lhe aparecera na janela de sua casa no Lami. Lembrava-se ainda, de que naquele mesmo dia em que fora levado para a Clinica, seu avô, pescador experimentado, tenha sido encontrado morto de forma estranha, corpo envolto num pano vermelho próximo ao "Diabo", o nome de seu velho barco, sempre ancorado próximo aos juncais. No local, só ele, Domenico, é quem teria visto pessoas e pegadas suspeitas.... Isso fora há 17 anos, pensou.

Após várias horas circulando aparentemente sem destino pela cidade, postura estereotipada, olhar perdido no vazio, braços rente ao corpo, se dá conta de que é chegada a hora de se recolher, ainda sente muito medo, sabe que ao anoitecer chegariam, também, os seres noturnos que percorrem alheios as intermináveis avenidas. Prossegue seu andar por uns quinze minutos e entra finalmente num prédio antigo da Rua Voluntários da Pátria.   Dias antes, ainda sob supervisão da equipe do hospital psiquiátrico São Pedro, alugara ali um quartinho sem nenhum conforto, nele, uma velha cama de ferro com lastros de madeira, um surrado guarda-roupas com sinais evidentes de cupim e uma antiga geladeira marca "Admiral". Entra, fecha a porta a chaves, retira-as e coloca no bolso, um velho habito nunca esquecido. Deita-se na cama preste a se quebrar sob qualquer movimento mais brusco. Permanece assim por algum tempo a contemplar o teto encardido e mofado do quarto, enquanto volta sua mente àquela lembrança incomoda dos olhos cinzentos, que o perseguia desde menino. Alguns instantes depois, levanta-se de sobressalto, parecendo sentir a presença de alguma coisa. Por todos os cantos procura sem nada encontrar. Sente, de alguma forma,  que não está sozinho. Algo muito ruim parece estar novamente rondando os seus passos. Já deve ser muito tarde da noite, sabe. Porém, não consegue pregar o olho. Talvez o medo de adormecer e não acordar mais; talvez o pressentimento de que sua vida esta ameaçada e não poderá vacilar. Todavia, não podendo lutar permanentemente contra a natureza do sono acaba dormindo e sonha, sonha com o menino que foi um dia...“correndo alegre e despreocupado pela rua principal de Flamígera, a única com calçamento regular no lugarejo, casas amareladas pelo tempo, folhas secas pelo chão de um outono a prenunciar rigoroso inverno, impressão de pura melancolia. Sôfrego de tanta correria o menino pára sobre uma pequena ponte de madeira construída certamente no inicio do século XIX pelos primeiros imigrantes italianos da região. Ali permanece por longo tempo, sentado tranquilamente com os pés próximos da água, a observar as folhas deslizando para algum lugar qualquer, indefinido. De repente sente-se empurrado, arrastado até a pilastra, consegue virar-se e vê sua imagem refletida em olhos frios e cinzentos, e mais nada, absolutamente nada, apenas o medo de um desesperado, depois a precipitação, a correria, o corte nos pés, sangue, desmaio“.

Acorda sobressaltado, suando e sentindo muito pavor. Lembra-se de que fora aquela a primeira vez em que vira aqueles olhos assustadores; há anos tinha os mesmos pesadelos.

Levanta-se, lava o rosto, pega sobre a cadeira o resto de dinheiro que lhe deram do INSS e sai novamente. A noite já vai alta, poderia ir a pé, no entanto, de forma mecânica, faz sinal a um táxi, entra e pede ao motorista para levá-lo a emergência da Santa Casa. Lá chegando tropeça nuns drogados estendidos à porta. Aparentemente calmo e muito educadamente pede ao porteiro para deixá-lo entrar. Tem a impressão de que o homem lhe é conhecido, faz pouco caso da intuição, apenas mais uma intuição... Segue corredor adentro. O silêncio intrigante às vezes é interrompido por sons de campanhia e gritos de crianças. Sem saber porque, lhe vem a imágem de um menino deficiente, único amigo que teve depois que chegou de Flamígera. Onde andará aquele garoto seu vizinho do Lami, vivia no mundo da lua, vítima da Talidomida, desaparecera de repente o seu único amigo da infância em Porto Alegre. Esboça um sorriso triste, peito angustiado, olhos úmidos. Apresenta uma velha e suja receita médica retirada dentre atestados que lhe foram entregues pelo Dr. Razumikin. Volta a esboçar um sorriso ao recordar o nome esquisito do médico com quem acabou fazendo amizade. "Razumikin é coisa de meu Pai, fizeram o crime e me deram o castigo, isso é coisa que se faça com um filho, isso lá é nome de gente", dizia sempre sorrindo!  

Aplicam-lhe umas injeções para acalmar-se, despede-se da enfermeira e volta para casa, onde toma uma cápsula de Risperidona. Antes ingeria um tal de Ritalina, mas essa lhe dava efeitos colaterais muito fortes, por isso mudaram o tratamento pouco antes e assim é que pode refletir um pouco e planejar um modo de receber alta. Fingir que esquecera tudo.

Deitado, não consegue adormecer, então se levanta e começa a revirar a velha mala. Afinal encontra o que procura, o mesmo quadro que seu avô guardava em um antigo baú, na casa do Lami onde crescera, desde que fora colocado em um ônibus da Unesul oriundo da pequena, pacata e pobre Flamígera, quase na divisa com Santa Catarina. O seu destino Porto Alegre, onde seu avô novamente, como em outros tempos já o esperava. Na moldura do pequeno quadro, o desenho de um rosto desfigurado, a mesma imagem, o mesmo olhar assustador. Aqueles olhos maus estavam lhe acompanhando a vida toda. Teria que descobrir o que havia por trás daquilo! Não ficaria em paz enquanto aquelas estranhas sensações ficassem obscuras em sua mente! Após o tratamento, dera-se conta de que o monstro que vira na janela; a imagem refletida no riacho quando criança, aquilo guardado em sua mala, as inúmeras vezes que sentira misteriosa presença em sua companhia, eram, pelo menos na sua imaginação febril, tão reais que lhe causavam imenso pavor, deixando-o absolutamente prostrado.

Todos os fatos pareciam estar relacionados entre si, mas não consegue compreendê-los. Agora sente sono. O tic-tac do relógio marca exatamente 12:47h. Não sabe ao certo, se é dia ou noite, poderia ser noite, quase sempre é noite. O quarto está escuro, janelas com persianas abaixadas. Havia dormido bastante, talvez as injeções e o medicamento ingerido tenham causado efeito. Sente-se descansado. Levanta-se, puxa forte o cordão das persianas e o cheiro da chuva entra por suas narinas. Já passa do meio dia. O estômago precisa ser abastecido com certa urgência. O inverno acaba de chegar.

Toma uma ducha de cinco minutos na água quente no banheiro coletivo. Sente a aragem fria, volta correndo pra dentro do quarto. Como não encontra nada na velha geladeira, frequentemente desligada, já lhe servindo mais como um armário, sai pela rua e, em meio a todo aquele barulho, cruza com um grupo de Bolivianos a cantar melodiosas canções andinas. Lembra-se de Maria Ana, onde andará aquela formosura estranhamente maquiada que conhecera na Voluntários da Pátria e já no primeiro encontro, entusiasmado, ouvira dela mil juras de amor! A pensão do INSS mal dá para sobreviver. Terá que arranjar com urgência alguma ocupação rendosa, mas o que fazer, gosta de música, toca violão e houve um tempo em que esse dom salvou-lhe a alma, no Lami e depois no Sanatório. É despertado de suas reflexões por uma freada brusca de uma Pajero que por muito pouco não o atropela, dentro dela, um sujeitinho com cara de macaco a chamar-lhe de imbecil, mandando olhar por onde anda. Domenico resmunga um palavrão e segue seu caminho um pouco mais atento. Conta seu dinheiro e calcula que pode virar-se no máximo por uns poucos dias. Pára num velho bar e lhe servem um malcheiroso pastel com ovo e salsa picados, verdadeiro exagero, tudo acompanhado de uma típica caneca de café com leite mornos. Como faz frio naquela parte da Avenida Farrapos. Até nos dias secos só há sombras indefinidas, uma tristeza sem fim, não há praças, nenhum garoto sorrindo e brincando pelas ruas. Parece-lhe que nunca houveram crianças. Naquela tarde, então, a temperatura insiste em continuar baixando muito. pequenos flocos brancos caem e desaparecem logo que tocam o chão.  É capaz de nevar em Porto Alegre, anunciaram as previsões na rádio Gaúcha ainda pela manha; Neva em Porto Alegre anuncia agora a rádio Guaiba sintonizada em alto volume no boteco.

Após a refeição volta logo para seu quarto e vai dormir. Assim, em meio a pesadelos e sonos mal dormidos, passa uma semana sem que possa ver e sentir o sol, ou caminhar tranquilamente pelas ruas como gosta de fazer.  Não, aquilo não pode ter sido neve, neve é o que a gente ve nos filmes, pensa. As chuvas, porém,  foram torrenciais, com transbordamento do arroio Dilúvio e grandes alagamentos por toda a cidade.

Alguns dias depois, numa sexta feira, amanheceu claro, o sol surgiu timidamente entre as nuvens e prometia o seu esplendor para muito breve. Domenico sai finalmente para a rua, decidido em acabar de uma vez por todas com aqueles estranhos pesadelos e lembranças. Buscaria sacar seu seguro do INSS, pois a grana que há em seu bolso, com certeza, não lhe permitirá sequer passar o dia.

Enquanto aguarda o momento exato das portas do banco abrirem, tenta puxar assunto com as pessoas. É uma tentativa um pouco desconexa da realidade. Ninguém lhe da atenção. Que povo é aquele fechado em si mesmo, sérios, mal humorados, pensa. Mundo estranho esse nosso, onde tantos se agridem à toa; tantos outros nunca fazem nada, seria tão bom conviver com tudo e ser para todos a melhor piada, filosofava e ria consigo mesmo da rima casual, chamando atenção para si.  Houve um tempo em que pensara tornar-se um cantor, compositor ou escritor famoso. Continuou rindo dessa ideia já tão distante.

De repente, o seu braço direito começa a tremer, a perna direita a chutar involuntariamente, o corpo todo se contorcendo, murmúrios e reclamações entre os enfileirados que aguardam à porta da agência bancária que está preste a abrir. Um funcionário, lá de dentro, parece observar tudo, ninguém oferece ajuda... Domenico cai pesadamente ao solo. Continuam os tremores pelo corpo. Tenta, desesperadamente controlar-se. Não consegue. Chega junto dele uma mulher com ares de madama, casaco de peles falsificado, começa a gritar, apavoram-se todos, chega um policial, chuta-o ao invés de acudi-lo, grita, arrasta-o até a viatura, joga-o dentro dela, prende-o sob a ridicula alegação de estar perturbando a ordem pública. Um drogado! Conclui de forma preconceituosa olhando para todos a sua volta. Depois bate violentamente a porta do camburão, esmagando os dedos de Domenico. Dentro do veículo, o rapaz chora silenciosamente. Tudo escurece em sua volta... Lembra-se de quando encontraram seu avô morto no Lami, tivera uma convulsão, mas daquela vez não se dera conta de ligar os fatos... Agora, somente agora após convulsionar e que parece ter tomado consciência da situação.

Feito os esclarecimentos na Delegacia, tratam seu ferimento com desleixo, sequer houve um pedido de desculpas. Volta ao banco, lá o reconhecem, olhares estranhos, dissimulados, se afastam dele com repulsa, nojo, como se fosse um pestilento. Saca o dinheiro e retorna cabisbaixo e ainda zonzo para seu quarto e volta a dormir um sono longo e pesado.

Surpreendentemente ao acordar, observa que não há nenhuma marca das agressões e lesões em seu corpo. Teria de fato sido agredido? Estivera realmente naquela situação penosa, constrangedora, humilhante? Não sabe mais o que está lhe acontecendo. Parece loucura. Já ouvira chamarem no de louco, estivera internado numa Clinica, um Hospital Psiquiatrico, mas não se sente louco, tem certeza disso, sabe que perdeu parte da memória, esqueceu algo muito importante, algo que parece estar controlando seu destino. Aquela tremedeira no braço, nas pernas e depois pelo corpo todo já lhe acontecera outras vezes, convulsão disseram sempre, mas também fora algumas vezes levado por um pequeno grupo que visitava o Hospital, a crer na possibilidade de estar possuído ou incorporado  por uma força estranha. Ouvira falar disso durante o período de internação. Nunca soube ao certo em que acreditar. Acreditar e duvidar ao mesmo tempo não lhe parecia antagônico; pressupunha maior respeito a verdade e a certeza de que ela ultrapassa tudo o que pode ser dito ou feito num determinado momento.

Enquanto filosofa, reflete e, num fluxo de consciência, um brilho surge dos seus olhos, a princípio de inigualável pavor; em seguida, no fundo, bem lá no fundo do seu espirito, no espelho de sua alma, uma estrela brilha de prazer, de êxtase, de puro esclarecimento!

É, pois, chegado o seu momento, conclui. Desce as escadarias correndo, sai à rua e pega o primeiro táxi amarelo laranja que passa na esquina com a Presidente Roosevelt.  É o mesmo motorista que o levara dias antes, à noite, para a Santa Casa. Senta-se no banco traseiro do veículo e pede que ao condutor que se dirija a Zona Sul da cidade. Até o Lami, diz com certa ansiedade. O homem olha serio. Paga adiantado ida e volta, recusa o troco. Vão por Belém-Novo. Ao chegarem próximo a estátua do Cavalo de ferro, tomam rumo à beira do rio, ao Pontal, na Reserva Biológica Jose Lutzemberg. Lá tudo está diferente, boas casas, até um calçadão, mas, quase defronte a casa de número 84, consegue observar em meio aos juncais os restos de um barco pesqueiro já praticamente submerso e, ali onde seria a proa, emergiam os restos de um Demônio entalhado. Era o “Diabo”, o barco do seu avô!!!

Uma enxurrada de recordações lhe vem à mente. Matara o velho ali mesmo na Ilha! Um bêbado inveterado, desde que domenico ainda menino chegara de Flamígera, órfão dos pais, só lhe falara a relho e a pontapés, infligindo-lhe toda a espécie de abuso sexual que iniciará alguns anos antes, ocasiões em que Domenico corria descalço pelo lugarejo e brincava sob a ponte. Depois, logo que se estabeleceu na casa, os seus gritos passaram a ser ouvidos pela vizinhança, mas ninguém nunca denunciara o diabo. Dábo era aquele homem! Uma vizinha, Dona Terezinha, boa gente ela, dizem que até tentou, a teriam silenciado.

“...Não! Não fora apenas os pés do velho pescador que o neto, de treze anos, havia decepado a golpes de facão. A história não repercutiu muito na época e o menino-louco, hoje, já deve ser homem feito. Está internado no hospício São Pedro...” Comenta o motorista do táxi, sem perceber o silêncio absoluto do rapaz ao seu lado. “...O que mais repercutiu aqui à época, foi a inauguração de um Parque de Diversões, desfiles, fantasias e alegorias de monstros e demônios que praticamante entravam pelas janelas das casas, alguns até hoje ainda se encontram na entrada do parque... Depois como tudo na vida, as coisas são simplesmente esquecidas ou abandonadas... como o parque.” Sentencia!


Já está quase anoitecendo. O motorista informa que para retornar é melhor tomarem a Estrada da Restinga, a Edgar Pires de Castro. Irão Passar defronte ao Parque dos Demônios, ainda abandonado é verdade, mas já pertencente a um famoso jogador de futebol do Gremio. Passarão também na ponte do “Sumiço” nome dado pelo povo do lugar a uma velha ponte que une e ao mesmo tempo indica a divisa entre os bairros Belém Novo e Lami. Dizem que é um portal para outra dimensão. Crianças, velhos e alguns indios que vivem por ali, afirmam terem visto coisas estranhas acontecerem naquele lugar. Tudo imaginação e folclore daquela gente ribeirinha!


Ao aproximarem-se da ponte, Domenico ainda meio entorpecido com tudo o que se lembrara naquele dia, pede ao táxista que pare um pouco. Estranhamente... Muito estranhamente o homem parece não escutá-lo e continua dirigindo em altíssima velocidade. Domenico grita-lhe aflito e desesperado! Mais uma vez parece estar sem respostas. Precisa de respostas!!! Agarra o homem pelos ombros... sacode-lhe. Uma risada demoníaca igual a do seu avô enche o veículo! O carro desgovernado, os demônios do "Parque Lami" à beira da estrada, a ponte já lá atrás, desaparecendo de seus olhos, “meu Deus, meu Deus, eu me arrependo de ter feito pecado...”, tudo gira, o carro esmagado sob as patas de um monstro com as mandíbulas abertas... o menino triste, correndo com medo, os pés descalços, sangrando, monstros a lhe perseguir, lágrimas...Vidros se quebrando... O silêncio, a emoção... O fim.





L.Domingos Dalabilia

domingo, 4 de julho de 2010

POSSÍVEL FOSSE

Possível fosse eu fazer um doce; dos momentos tristes, amargos, do fim! Possivel fosse eu fazer um doce das passadas largas, das fracas pisadas, do gozo noturno e  do corno diurno! Possível fosse eu fazer um doce dos tormentos loucos, das císmas fajutas, da dura labuta,  das lutas vazias e dos falsos projetos! Possivel fosse eu fazer um doce... Do orgulho que impede os encontros, os reencontros, a capacidade de perdoar e amar! Possível fosse fazer um doce... Fazer um doce... Do fél da minha boca falando a toa, do sal do suor de quem se empenha, dos pesadelos de quem não dorme, das fantasias de quem nem sonha!!! Possível fosse...possível fosse.

sábado, 26 de junho de 2010

SÚPLICA

Sentia a toda hora, a cada novo instante, um amor descompassado a sacudir seu coração. Incertezas sempre mais e mais no vazio de sua existência. Esse amor não existe! Não existe! Não existe! Exclamava-lhe a razão! Mas... Preciso tanto tanto de um amor paciente e que me faça feliz! Gritava, gritava, lançando esta súplica ao vento e ao fogo das paixões! Porque alguém, em algum lugar... Tinha a certeza, haveria de estar querendo viver... Viver só de emoção! Ah, mas o tempo passava depressa, depressa! Sabia que já não era um moço, um covarde quem sabe...Um louco infeliz! Tinha é medo da esperança se esvaindo aos poucos. Minha vida! Vida minha! Meu amor gentil! Diga Onde está? Diga Onde está? Acalmai esta minha’alma desesperada e aflita! Incompreendida, incompreendida na sua ânsia de se completar.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

OS IPÊS SE CARREGAM DE FLORES EM AGOSTO


OS IPÊS SE CARREGAM DE FLORES EM AGOSTO


(tema: idade-preconceito-fantasma)



Este conto foi produzido na oficina de Charles kiefer, é  minha homenagem  a  todas as mulheres que já floresceram..."

Sou Joaquim. Há alguns anos mudei de profissão, vivia da advocacia. Era ansioso, impulsivo e exagerado, percebi que deveria me afastar daquela formalidade toda e me afastei. Alguns de vocês dirão que sou piegas, um brega, um bobo, quem sabe um chato emotivo, e talvez tenham razão. Todavia, sou assim mesmo, pensem o que quiserem, esse é o meu lado feliz. Gosto disso! Hoje, pensava em alguém que marcou definitivamente minha existência. Tenho a nítida impressão de que é Ele, quem, ultimamente, anda por aí resmungando nos meus ouvidos, falando bastante, como fazia naqueles tempos em que resolvia, do nada, expor uma de suas idéias interessantes: “ – Meninos! É a partir dos trinta e cinco, quarenta e cinco anos de idade que as mulheres se tornam mais lindas e atraentes.” Mês de agosto como esse que inicia. Eu tinha pouco mais de quinze anos e ainda lembro perfeitamente do Juvenal Monteiro e seus olhos azuis, longas barbas, duro das pernas, boné de lã e sua grande manta lançada sobre os ombros. Passava os dias lendo os contos eróticos de Dalton Trevisan, muito embora soubesse tudo sobre Machado de Assis, Fitzgerald, Poe. Além disso, Ele nos contava histórias de Stevenson e Defoe. Lembro-me do personagem “David, de Raptado” e de “Robinson Crusoe”. Nalgumas tardes que já são recônditas lembranças, Acomodava-se na cadeira de balanço à sombra de um velho Ipê, chamava a mim e Desidério seus netos, e sem mais nem menos começava discorrer algo sobre as mulheres, dizia saber tudo sobre o gênero feminino e normalmente o assunto era o mesmo... As femeas com idade acima de trinta e cinco ou quarenta e cinco anos! Coitado do Vô, pensava eu preconceituoso. Nascido numa cidadezinha onde não acontece nada!! Ora, se ao menos tivesse vivido na Capital! – Não é por acaso não garotos! É porque elas são únicas, algumas depois de trinta; outras depois de quarenta começam exalar um cheiro diferente, o cheiro da fêmea. A carne torna-se mais doce, frutas que amadureceram tranqüilas, adquiriram sabor. Nessa idade, depois de passarem por algumas ou várias experiências entregam-se felizes e sedutoras ao seu macho. A alma feminina, sempre e muito mais iluminada que a nossa, atinge sua plenitude, tornam-se espetaculares, iguais as belas flores desse meu velho Ipê! ... Você ri Joaquim! Moleque sem vergonha, guri desaforado. Preste atenção quando digo para não perder seu tempo com essas menininhas de quatorze, quinze anos aqui da Vila; elas nem sabem se gostam de homem ou de mulher; desfrute das mais velhas e vai sentir o quanto é bom desabrochar para o relacionamento prazeroso, sem culpas, sem contar quantas deram, sem preocupar-se com o primeiro, segundo ou último lugar naquela que vocês, Joaquim e Desidério, pensam ser a mais importante maratona do século! Elas não se importam com isso. Já aprenderam fazer amor daquele jeito que nos transforma em homens de verdade, nos fazem entregar-se inteiro, descer do pedestal e na maioria das vezes subir pelas paredes! Ah,ah,ah,ah, e não adianta procurar muito longe não, elas estão por perto, são como o mercúrio, não tentem agarrá-las que elas fogem, são elas que nos escolhem e como disse Clarice Lispector são elas que decidem o momento de ser demoníacas ou anjos.”  A teoria do Vovô, autodidata que sempre acreditou em fantasmas e por isso nos garantia que ia ficar "zanzando" por aí, se mostrara completamente eficaz à meu irmão Desidério. Aquele, casou-se aos vinte e cinco com Isadora de trinta e três e nunca saiu de Flamígera. Eu, pra contrariar, aos dezoito mudei-me para Porto Alegre e durante muito tempo apenas me relacionava com mulheres jovens, “muito jovens” diria o Vô Juvenal. Isso, porém, aconteceu até o dia em que acabei conhecendo-a na minha loja de livros. Deparei-me com a mulher parada defronte a prateleira onde se encontravam os nacionais, botei-lhe os olhos e continuei indiscreto e atabalhoado acompanhando-a terminar de ajeitar, ali mesmo os cabelos num tom levemente dourado. Usava jeans, botas de cano alto e podia se perceber sob o casaco de couro levemente aberto, uma camiseta branca, quase transparente, insinuando o volume dos seios que palpitavam num movimento natural. Nela, tudo parecia combinar com suas intenções! Cuidadosamente apanhou um romance de “Kiefer”, aquele narrado na 2ª pessoa, onde bem ao final da história o sobrinho quebra os ossos da tia para conseguir vesti-la de noiva, depois, e como se estivesse dançando uma valsa... Ela veio vindo em minha direção, querendo tirar partido, convencida, perigosa, machucando com sua beleza, cheirando inquietação, olhando nos meus olhos com seus  olhos de uma tonalidade pouco comum, a principio azuis... depois verdes, sim eram verdes, eram mel... linda, livre, sem limites. Será que era dessas que o Vovô falava? Trinta e cinco, quarenta e cinco, talvez mais; talvez menos, não pude avaliar direito. Quanto? Ahhh? Quanto é o preço do livro? Trinta ou quarenta. Ela riu o sorriso mais lindo que eu já vira. É trinta ou quarenta pessoa?! Voltei ao chão. Quarenta, concluí. Achou caro. Disse-lhe que o romance era bom e à vista teria desconto, poderia levar no cartão, no cheque pré-datado, até fiado... Insisti. Àquela altura já não estava mais preocupado em vender, queria desfrutar ao máximo sua presença, seu cheiro... Aquele cheiro diferente de que Vovô tanto nos falara! O cheiro da fêmea! O cheiro da fêmea estava ali, naquela mulher. Fechamos negócio. Alegre e avassaladora circulou mais alguns instantes entre as prateleiras. Não sou mais aquele menino tímido, afinal já passei muito dos quarenta e tinha vivido algumas histórias, dessa vez, no entanto, não resisti àquela sensação nova que me dominava inteiro e sem pensar, sem saber direito o que fazer escrevi um bilhete, fiz-lhe um secreto elogio, colocando-o discretamente entre as paginas de um dos livros que acabará de empacotar. – Continua o mesmo esse meu neto, desse jeito não casa nunca, comportamento de piá, infantil, um bobo.” Senti o Vô Juvenal resmungar ao meu ouvido. Lancei a mulher um sorriso convidativo que deve ter saído muito ridículo aos olhos seus, pois encarou-me irônica e deu uma estonteante gargalhada deixando à mostra dentes perfeitos. Me vi gaguejando um pouco mais, consegui a muito custo indicar-lhe outros títulos. Acabou deixando reservados “O animal Agonizante” de Philip Roth, “As armas secretas” de Cortazar e “A Arte de amar” de Ovídio. Surpreendi-me ainda mais positivamente com seu gosto eclético e antes de sair ao trocarmos um aperto de mãos, num gesto espontâneo, incomum diante das circunstâncias, os seus lábios roçaram levemente minha face, depois sem que me desse tempo de expressar algo, saiu as pressas, sorrindo e prometendo voltar. Na rua pude ver e até sentir o sol brilhando num calorzinho agradável, daquele jeito que não é forte nem fraco e que acontece no meio das tardes de Agosto antevendo a primavera. Durante a semana seguinte, sempre sorrindo e sem tocar no assunto “bilhete”, Ela*  chegava dia sim, dia não à procura dos livros que encomendara, entreguei-lhe apenas um de cada vez - a bem da verdade eu sempre os tivera no estoque. “-Fizeste bem guri, uma mentirinha dessas não faz mal nenhum.” Era Vovô que voltava a sussurrar nos meus ouvidos. Criamos uma empatia Eu e Ela*, o clima finalmente esquentou, estávamos ficando! “- Ficando! Que é isso rapaz?”. Lembro ter sido numa segunda-feira por volta das 22:00h. Preparava-me para deixar a loja já sem clientes, quando alguém entrou precipitadamente e se dirigiu ao balcão onde me encontrava. Era outra mulher. Não a conhecia e nem tive tempo de perguntar-lhe o que desejava. Lançou-me ao rosto um papel amarrotado, xingando-me de atrevido e safado, perguntando, enfim, o que eu pensava da vida? – Ãhhh? – Como ousas flertar com Ela? Quem?  Cristina, homem! Cristina. Aquela para quem escreveste esse bilhete daí. Juntei o papel amassado e o reconheci. Surpreendido, neguei. Isso mesmo, neguei, afinal não estava assinado, o escreverá em letras de forma, ninguém poderia ter certeza de que o bilhete era meu, muito menos que fosse dirigido a Ela*, afinal, o que aquela mulher tinha a ver com isso? Perguntei-me sem nada entender. “–Covarde!Covarde! Covarde! Meu neto é um Covarde...”. Pareceu-me ouvir Vô gritando e, naquele instante, senti que ele tinha razão. Eu, Joaquim, o seu neto mais velho, tornara-me um covarde vendedor de livros! Sem coragem de admitir as coisas, sem coragem de confessar que aos quarenta e tantos anos, depois de vários relacionamentos fracassados e inconsistentes estava apaixonado. Ela* reunia atributos de inteligência, muito charme, simpatia e um corpo que fazia a imaginação trabalhar ligeiro... Tudo emoldurado em 1,62cm..1,70cm, de salto! O meu ideal de beleza feminina. Entretanto e ao que pareceu-me naquele instante, era lésbica! “Epa, se danou o coitado!!!!”. Cansado e com um sentimento de raiva até, já nem ouvia ao Vovô me perturbando a cabeça, nem as palavras da visitante inesperada, quando, num ápice empunhei o revólver que guardo engatilhado sob o balcão. Foi sem qualquer aviso. Nesses casos não adianta muita conversa rapaz...”. Dei o tiro. Um só. Após o estampido fez-se um silêncio sepulcral... A mulher, coitada, ali... Olhos cerrados, os músculos tensos, completamene paralisados. É Difícil acreditar nessa minha história... Eu sei. Mesmo que já tenha sido instrutor de tiros, por causa desse meu transtorno de ansiedade agi por impulso, não refleti, penso que dei sorte, muita sorte. Às costas da mulher jazia o corpo morto do bandido que nos surpreendera durante a discussão, na mão direita ainda trazia uma pistola 9mm destravada e entre os olhos um buraco de bala. Um só! “– Eita porquera! Esse daí é meu neto!!!”. Vovô Juvenal dando-me, finalmente a sua aprovação. Refeitos do susto a fiz sentar-se, servi-lhe um copo com água e chamei a policia. Na frente do estabelecimento um aglomerado se formara, pareceu-me ver entre o povo um velho barbudo, boné de lã, gesticulando e sorrindo muito... O morto era um fugitivo do Presídio Central, elemento perigoso, cruel, fora preso por vários latrocínios. “Sabe que não é aconselhável reagir a um assalto Joaquim. Teu santo é forte homem”. Ouvi e virei-me depressa pensando estar louco, a voz era muito parecida... Não! Não era Ele. Dessa vez tratava-se do delegado Gimenez, antigo colega da faculdade concluindo os procedimentos de estilo. Eu, que já atuara como advogado, sabia que um inquérito e o processo judicial seria iminente, todavia, dentro das circunstâncias em que ocorreram os fatos, apesar dos transtornos, tinha convicção de que tudo terminaria bem. Desculpei-me com a mulher, esquecemos a briga inicial. Depois, mais descontraídos, conseguimos rir um pouco da situação e, mesmo sem precisar, esclareci-lhe sobre meus sentimentos, revelei-me inteiro. Explicou-me que também amava. Aquela, no entanto, sem preconceitos e muito compreensiva já descartara quaisquer possibilidades, nunca lhe dera a menor chance. Eram e continuariam sendo apenas amigas... Mesmo porque, disse ela, todos os seus pensamentos, há meses, estavam direcionados ao homem da “Livraria”. Pediu-me para compreendê-la, sentira ciúmes e resolvera tirar satisfações. Deu no que deu. –As mulheres inteligentes agem assim. Elas melhor que nós sabem muito bem quando uma luta esta perdida, quando é preciso dar um basta em tudo, manter o amor próprio, ir embora antes que nos mandem.”. Invista logo no relacionamento e não perca tempo ela disse encerrando a conversa... E foi o que fiz! Cristina  acabou de fazer mais um aniversário,  estamos juntos a pouco mais de um ano, ficaremos juntos para sempre, amanha é o primeiro dia da primavera... O Velho de barbas branca ainda passeia sorrindo aqui pelas ruas do Bom Fim... E os Ipês já se carregaram de flores nesse Agosto.



L. Domingos Dalabilia

NOS DEGRAUS DA TORRE [Rudá]


NOS DEGRAUS DA TORRE
[Rudá *]

(tema; preconceito-culpa-mitologia


Odiava gente! Passei a vida jogando pedras do ponto mais alto da minha fria e desolada torre, embora a vida sempre tenha sido boa comigo.

Hoje acordei com uma sensação estranha, não era medo, talvez seja aquilo que chamam de solidão, senti-me só pela primeira vez e foi nesse momento que resolvi descer as escadarias do castelo que um dia construí para mim mesma.

Apesar do meu passado, das coisas que vivenciei, depois de muitos anos ali fechada, resolvi iniciar a descida, primeiro degrau por degrau, depois saltando de dois em dois. Estranhei a criança que começava surgir em mim.


De repente o vi por um vão da janela, parecia uma alucinação, porque não era possível Ele estar ali tão próximo e sem qualquer auxilio, suspenso no ar.


Fechei os olhos, abri, tentei fixar o olhar, estava tudo muito iluminado e Ele continuava a me observar inteira, me senti nua, a criança que surgira em mim sumiu e comecei a crer na própria loucura outra vez.

Tentei inesperado movimento para descer correndo outros tantos degraus. Ele me olhou serio e não sorriu, parei estática, criei coragem e perguntei-lhe o que era, quem era? Silencio absoluto tomando conta de tudo.

Queres ser meu amigo? Essa outra pergunta feita assim meio boba, sem razão de ser, demonstrava uma insegurança que Eu desconhecia até aquele momento. Ele deu uma gargalhada intensa! O que me soou como um alerta. Pensei, estou pedindo-lhe para ser meu amigo? Logo eu que nunca fui amiga de ninguém.


Não me reconhece, observe, reflita, pondere, posso ser tudo, todos ou nada, pareceu-me ouvi-lo dizer com ironia nos olhos.

Sentei-me nos degraus que não havia notado, já estavam carcomidos por pequenos insetos, deteriorados, podres. Não havia certeza do prosseguir, intenso cansaço.

Fechei os olhos novamente, pretendia mantê-los assim, e foi então que consegui ver tudo claro pela primeira vez...

Era eu uma menina linda tripudiando daqueles que julgava diferentes de mim, apenas porque não organizavam os pensamentos à minha maneira, não compreendiam as idéias que eu julgava simples. Ria daqueles idiotas retardados, autistas, mongolóides. Ria daqueles que batiam à minha porta e mais tarde daqueles que me abordavam em semáforos, e continuei rindo rindo rindo sem parar das criaturas que julgava feias, desprezíveis, inferiores aos meus olhos.

Algo acontecia dentro de mim enquanto reiniciava a descida, agora de olhos fechados-abertos, firmemente agarrada ao corrimão, o medo tomando conta de mim, recusando-me a vê-lo.

Eu não tinha, nem tenho defeitos, pensava. Instalara-me nas alturas e de lá vivia jogando pedras, vomitando o meu preconceito. Não os compreendia, não os tolerava, porque não os amava!

Não agüentei, abri novamente os olhos, e agora ele estava ali se mostrando inteiro. O reconheci em todos aqueles "diferentes" que julguei mal.

Precipito-me escada abaixo, lembranças a me torturar, Ele ali, agora a meu lado, quase me tocando... olhar terrível a me perseguir, revelando-me inteira.

Interrompo a descida sentindo meus olhos umedecidos e uma lagrima teimosa vem molhar meu nariz.

Chego lentamente aos pés da escada, abro a porta do meu velho e desolado castelo... observo um castelo hoje tão pequeno... meus pés feridos na escada ainda doem, o sol se põe... o caixão está ali à minha espera, resignada deito-me dentro dele e naquele breve instante ainda consigo, uma ultima vez, olhar para o alto, para os céus... Rudá agora me sorri amistoso, talvez não seja tarde demais eu penso... Enquanto uma pá de cal é jogada sobre meus olhos.


*RUDÁ:  "Anjo" que habita entre as nuvens com a missão de despertar o amor no coração dos homens.